Ver a mãe — ou qualquer pessoa querida — começar a esquecer detalhes do dia a dia é angustiante. A primeira reação costuma ser o medo de que aquilo seja “o começo do Alzheimer”. Mas nem todo esquecimento significa doença neurológica. Neste texto explico, de forma clara e prática, como diferenciar o esquecimento comum do envelhecimento do quadro que exige avaliação médica, que exames podem ser pedidos, e o que você pode fazer desde já.
Esquecimento nem sempre é sinônimo de doença
Com o passar dos anos é normal haver alterações na memória e em outras funções cognitivas. O cérebro envelhece: processos ficam um pouco mais lentos, e a capacidade de recuperar uma informação de memória de curto prazo pode diminuir. Isso não é necessariamente preocupante se a pessoa mantém a autonomia e a vida cotidiana sem grandes prejuízos.
Exemplos de esquecimento normal
- Esquecer onde deixou as chaves e lembrar depois ao fazer outra atividade.
- Demorar um pouco mais para lembrar nomes de conhecidos, mas lembrar com pistas.
- Dificuldade ocasional em manter múltiplas tarefas ao mesmo tempo.
- Esquecimentos que não se repetem frequentemente nem pioram com o tempo.
Quando o esquecimento pode indicar Alzheimer (ou outro problema cognitivo)?
Alzheimer é a forma mais comum de demência, uma síndrome em que há perda progressiva de memória e de outras funções cognitivas que comprometem a independência. Antes de um diagnóstico de demência, pode haver um estágio chamado comprometimento cognitivo leve (MCI, sigla em inglês), em que há queixas de memória maiores do que o esperado para a idade, mas sem perda significativa da autonomia.
Sinais de alerta (quando buscar avaliação)
Procure um médico se notar um ou mais dos seguintes sinais:
- Esquecimentos frequentes que atrapalham tarefas diárias (por exemplo, esquecer de pagar contas ou perder compromissos importantes).
- Repetir perguntas várias vezes no mesmo dia.
- Dificuldade para encontrar o caminho em lugares conhecidos (desorientação espacial).
- Problemas progressivos com linguagem — esquecer palavras ou ter discurso confuso.
- Dificuldade crescente em planejar ou lidar com finanças.
- Perda de interesse, apatia ou mudanças marcantes de personalidade.
- Alucinações, delírios ou agitação nova.
- Declínio que piora ao longo de meses (não só dias ou semanas).
Exemplos práticos para entender a diferença
- Caso A (envelhecimento normal): Dona Lúcia, 78 anos, às vezes esquece onde deixou o óculos. Quando alguém lembra que ela procurou no criado-mudo, ela lembra imediatamente. Continua cuidando das finanças e do lar sozinha.
- Caso B (comprometimento cognitivo leve): Dona Marta, 72 anos, tem esquecido nomes de vizinhos com mais frequência e às vezes se atrasa para compromissos, mas ainda gerencia as contas com ajuda eventual do filho. Foi avaliada e tem acompanhamento para monitorar evolução.
- Caso C (sugestivo de Alzheimer inicial): Dona Ana, 74 anos, começa a repetir perguntas poucas horas depois de ter ouvido a mesma informação, se perde ao voltar de uma caminhada que fazia sempre, e um vizinho percebeu que ela deixou o fogão ligado duas vezes. Esses sinais merecem investigação rápida.
O que fazer nos primeiros passos
- Observe e registre:
- Anote exemplos concretos: data, hora, o que aconteceu e o contexto.
- Registre mudanças de humor, sono, uso de medicamentos e outras doenças.
- Convoque um diálogo simples:
- Fale com sua mãe com calma. Muitas vezes ela mesma percebe mudanças e fica aliviada com o apoio.
- Reúna informações sobre histórico familiar (casos de demência na família) e lista de remédios.
- Marque uma consulta:
- Comece com o médico de família, clínico geral ou geriatra. Se necessário, ele encaminhará para neurologista ou geriatra cognitivo.
Avaliações e exames que costumam ser feitos
Para distinguir envelhecimento normal de causas tratáveis ou demência, o médico pode pedir:
- Avaliação médica completa: exame físico, revisão de medicações e avaliação de depressão/ansiedade.
- Testes cognitivos breves: MMSE (Mini Exame do Estado Mental), MoCA (Montreal Cognitive Assessment) e avaliações neuropsicológicas mais detalhadas, se necessário.
- Exames de sangue para causas reversíveis: dosagem de TSH (hipotireoidismo), vitamina B12, glicemia, eletrólitos, função renal e hepática, hemograma, vitamina D e, em alguns casos, pesquisa de sífilis (VDRL) ou HIV quando indicado.
- Imagem cerebral: tomografia (TC) ou ressonância magnética (RM) para excluir causas estruturais (tumores, hidrocefalia de pressão normal, AVCs) e para padrões compatíveis com doenças neurodegenerativas.
- Avaliação de remédios: muitos fármacos (sedativos, anticolinérgicos, alguns analgésicos) podem prejudicar a memória.
Importante: existem causas reversíveis de confusão e perda de memória (por exemplo, hipotireoidismo, deficiência de B12, desequilíbrios metabólicos, efeitos de medicamentos), por isso a avaliação médica é essencial.
Tratamentos e intervenções disponíveis
- Tratamentos farmacológicos: em casos confirmados de Alzheimer, existem medicamentos (inibidores da enzima acetilcolinesterase e memantina) que podem ajudar a reduzir sintomas e retardar a progressão em alguns pacientes. A indicação e o benefício variam; só um médico pode avaliar.
- Reabilitação cognitiva: programas de estimulação cognitiva, terapia ocupacional e programas educacionais podem melhorar habilidades e qualidade de vida.
- Tratamento de sintomas comportamentais: para depressão, ansiedade ou insônia, tratar o sintoma pode melhorar a memória.
- Controle de fatores de risco vascular: hipertensão, diabetes, colesterol alto e tabagismo aumentam risco de declínio cognitivo; tratá-los é fundamental.
Mudanças no dia a dia que ajudam
- Atividade física regular (pelo menos 150 minutos semanais de exercício moderado).
- Alimentação saudável (padrão mediterrâneo/MIND é associado a menor risco).
- Sono de qualidade e controle de apneia do sono.
- Estimulação mental: leitura, jogos, aprender algo novo.
- Manter vida social ativa.
- Rotina e organização: listas, calendários, lembranças visuais e rotinas previsíveis.
Como conversar com sua mãe sobre o assunto
- Use empatia: evite acusações e julgamentos. Diga que você a ama e está preocupado(a).
- Escolha um momento tranquilo e explique que você notou alguns esquecimentos e quer uma avaliação para ter certeza de que esteja tudo bem.
- Inclua ela nas decisões: muitas pessoas ficam angustiadas com a perda de autonomia; envolvê-las aumenta a colaboração.
- Ofereça apoio prático: marque a consulta, leve a lista de medicações, venha junto para anotar orientações.
Planejamento, segurança e apoio para cuidadores
- Segurança: verifique riscos em casa (fogão, porta aberta, uso de remédios) e considere adaptações (trancas, detectores, organização de armários).
- Documentos: organize documentos importantes (RG, CPF, cartão SUS/convênio, carteira de motorista) e discuta procuradoria/planejamento legal se houver perda de capacidade futura.
- Direção: avalie a capacidade de dirigir; perda de orientação e atenção indica risco elevado.
- Rede de apoio: procure grupos de apoio locais, associações de Alzheimer e serviços de assistência social. Cuidar de alguém com declínio cognitivo é exaustivo; buscar apoio e períodos de descanso (respite) é essencial.
- Profissionais: geriatras, neurologistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais e assistentes sociais são aliados importantes.
Quando procurar emergência
Procure atendimento imediato se ocorrer:
- Alteração súbita e marcante do comportamento ou confusão que surge em poucas horas ou dias (pode ser delirium).
- Sinais de AVC: rosto caído, fala arrastada, fraqueza em um lado do corpo — telefone imediatamente para o serviço de emergência.
- Sintomas físicos graves: febre alta, desidratação, queda com lesão.
Conclusão
Sentir medo ou incerteza quando a mãe começa a esquecer é natural. A boa notícia é que nem todo esquecimento é Alzheimer — muitas causas são tratáveis ou fazem parte do envelhecimento normal. O mais importante é observar padrões, registrar exemplos concretos e procurar avaliação médica para esclarecer a causa. Com diagnóstico e orientação adequados, é possível oferecer suporte, planejar o cuidado e melhorar a qualidade de vida da sua mãe e da família.